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terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

Há algo de podre em Cubatão

Não se trata do cheiro de ovo podre, que tantas vezes atormentou o nosso sono – quando não o impediu – fruto da poluição infernal que fez a cidade se tornar conhecida no mundo como “Vale da Morte”.Não por coincidência voltei à Cubatão neste final de semana, convidado pelos jovens da juventude socialista para debater a política e a comunidade, em um seminário realizado no mesmo mini-auditório da mesma Câmara municipal, local que tantas vezes foi o espaço em que o movimento social – vivo e ativo no final das décadas de 70 e durante toda a década de 80 – se fez protagonista da história.Pra mim, nunca saí de Cubatão – porque embora vivendo longe (Brasília, Salvador e agora S. Paulo) acompanho com olhos e ouvidos atentos, o que na cidade acontece.Voltar é sempre uma experiência marcante; é como rever um filme, do qual sou um dos protagonistas desde as décadas de 70, 80 e 90. A história continua e os capítulos vão se sucedendo como uma mini-série, cujo capítulo final está longe do “the end”.E o interessante é que como sou personagem desse filme, e ele ainda não terminou, é como se a cada volta à cidade, me reinserisse na história. É um filme real, uma espécie de big brother, onde de repente, a população pode decidir mandar “mocinhos” para o paredão.O debate, mais que uma palestra, foi uma conversa. Uma conversa franca como deve ser toda boa conversa.Comecei por lembrar que a crise não é nova. Começa com a crise do modelo econômico no final da década de 70, com a denúncia do inferno que passamos a viver, com denúncias de crianças nascendo sem cérebro. Com a resistência da população que foi às ruas, denunciar e pedir socorro para o mundo. Lembro que Mauri Alexandrino, repórter/combatente do “Cidade de Santos”, e meu colega de Trupe, foi um dos artífices do Manifesto ao Povo Brasileiro, em que denunciávamos o “genocídio” que ocorria na cidade.Manifesto, aliás, que desaguou na Associação das Vítimas da Poluição e das Más Condições de Vida de Cubatão, no apoio dos padres Porfírio e Nivaldo, que abriram a Igreja Matriz – meio desconfiados – para o desespero popular.Por aquela porta do salão paroquial, entraram pais e mães de crianças anencéfalas, entrou a imprensa nacional e internacional, entrou Fábio Feldman, então jovem advogado da OIKOS, que viria a se tornar ambientalista conhecido em todo o país.Em Cubatão, sempre estávamos preparados para viver o pior. Em 1.984, a tragédia de Vila Socó, com as 100 mortes oficiais, nunca reconhecidas nem assumidas pelos responsáveis, chamou mais uma vez a atenção do mundo.Não esqueço, as cenas dantescas, de seres humanos reduzidos a centímetros com os tocos de braços levantados para o alto, como a pedir piedade dos céus. Estavam todos, lado a lado, na Casa Amarela , demolida logo depois.O que veio a seguir, foi mais uma vez a resistência do povo, os enfrentamentos com a Polícia Militar, mais resistência, vitórias, que nem puderam ser comemoradas, e mais resistência.Até que, a cidade se cansou. Foram muitas as derrotas. O cansaço das derrotas – inclusive políticas nas várias eleições – levou a uma certa prostração; uma espécie de conformismo prostrado, que foi o prenúncio para a última etapa da crise interminável que Cubatão vive há décadas: a crise do poder político. Executivo e Legislativo afundados numa crise de credibilidade, que aprofunda a desesperança da população.Lembro, Fernando Gabeira, no comício de encerramento da campanha para a prefeito em 1.985, a primeira eleição após a reconquista da autonomia. Eu queimava de febre, em cima do caminhão na Praça Princesa Izabel, mas recusava-me a entregar os pontos para a crise de fígado, que ao final me levaria a ficar por dois meses de molho no Hospital das Clínicas para me submeter a uma delicada hepatectomia.Com a postura zen com que voltara há pouco ao Brasil, Gabeira, acabara de encostar na parede, o então prefeito José Oswaldo Passarelli, com uma pergunta demolidora: “Como é que o senhor me explica, que uma cidade que tem a maior arrecadação per capta do país, continue afundada neste pesadelo?”A pergunta de Gabeira, no distante 1.985, quando eu tinha apenas 26 anos, continua válida. Como é possível explicar que uma cidade tão rica, com uma das maiores arrecadações per capita do país, com uma renda média superior a Santos, continue vivendo o pesadelo da miséria, do abandono e de políticos nas quais não pode confiar?Neste caso, é a pergunta que ainda está soprando com o vento.

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